

A queda da Ponte de Lamas de Vouga no passado dia 12 de Novembro não foi uma surpresa devido ao estado avançado de degradação dos pilares da ponte (desta vez felizmente sem vítimas). O que surpreende é a vontade da autarquia em demolir a ponte (!) (
ver aqui notícia), uma decisão que espero venha a ser revogada porque esta ponte tem um grande valor patrimonial que não pode ser obliterado. A ponte actual é o resultado de sucessivas reparações, a última das quais foi o alargamento em betão feito pela JAE nos anos 30 para adapta-la ao tráfego moderno. Sabemos que a sua construção foi ordenada por D. João III em 1529 e que sofreu reparações em 1713 por ordem de D. João V que lhe terão dado a feição que ainda se vê hoje. De facto a ponte actual foi construída sobre a estrutura de uma ponte anterior da qual ainda são visíveis os pilares e os arranques dos arcos, conforme se pode ver na fotografia acima à direita.


Mas o principal argumento contra a demolição está na hipótese da ponte quinhentista ter sido construída sobre uma anterior romana, proposta baseada nos seguinte argumentos: desde logo porque aqui era o ponto onde a grande via romana que ligava Bracara Augusta a Olisipo transpunha o rio Vouga, passagem controlada pela civitas Talabriga que fica no cabeço sobranceiro ao rio, conhecido como Cabeço do Vouga (estação arqueológica recentemente aberta ao público). Por outro lado, as típicas «marcas de pedreiro,» indicadores da sua cronologia medieval, estão já por cima dos arranques dos arcos da ponte anterior (na foto da esquerda). Assim é possível que toda a base do pilar tenha origem romana, atendendo ao talhe perfeito dos silhares e ao acentuado desgaste superficial. Mas o argumento definitvo que na minha opinião atesta a sua romanidade são as marcas de fórfex ainda visíveis em pelo menos 3 silhares da foto. (na foto da direita, o grande silhar ao nível do rio e os dois silhares da quinta fieira).
Em conclusão, esta ponte sobre o rio Vouga é um dos principais monumentos viários da época romana em território nacional e não deve ser demolida. Se esta lógica “demolidora” fosse sempre seguida certamente que não restaria uma única ponte romana em Portugal. Por outro lado, se o argumento invocado for o elevado custo de reparação, então basta deixar como está, removendo apenas os escombros do leito do rio. Exemplos desta solução são muitos como a vizinha Ponte do Marnel ou a Ponte da Ns. da Ajuda na estrada que ia para Olivença que apesar se terem perdido a sua função viária não deixam por isso de ser ainda hoje monumentos impressionantes. Quem pensaria hoje demolir a Ponte Rotto em Roma?
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